18 de jul. de 2021

Essa música de jazz não conhece o meu lugar. O disco de vinil está arranhado exatamente na palavra arranha-céu – palavra que de tão pronta não cabe em poemas. Não encaixa nos versos – a poesia fica muito poesia. Não é metáfora nem fantasia. Tampouco distopia, realismo mágico ou fluxo de consciência. É uma música suspensa. Pendurada no azul que às vezes é cinza, rosa, amarelo ou laranja. Essa música de jazz tem uma letra que luta contra a palavra. Sem explicar, ela faz um estilo novo. Não vou colocar esse estilo acima da história que tenho para contar, penso. Às vezes você é tão pronto também. Principalmente quando explica pra canção que é muita idiotice lutar contra a palavra. Então você a deixa de fazer e ela te persegue até se sentir pendurada em poucos acordes dissonantes. Você é um poema, tenta explicar. E ela insiste. Precisa se sentir tocada para existir. Sou parte palavra, parte oração, parte canção – ela quer respirar ao contrário. Às vezes a gente parece com ela.