Sua cidade foi um convite para tomar
café, mas passei tanto tempo tomando cerveja em um bar que perdi a hora. Fui um
problema de momento, coragem e satisfação. Como tudo que não tem na minha
cidade. Quem me dera uma descolonização. Digo, não sei querer mais nada.
Desaprendi quando quis espaço e só encontrei abismo: ainda estou caindo. E
parece que vou demorar. Tudo vai embora depois da gente. Fiz a barba como quem
faz coragem. Descobri que ocupar lugares errados é um precipício. E não saber
ficar é tão exaustivo quanto ter espera. Senti o peso de ir embora e a sensação
de me perder depois. Então você teve tempo para mim. Teve o tempo e a leveza
juntos. Talvez eu nunca mais te alcance. Ou te alcanço agora enquanto escrevo
que preciso ver você ficando bem. A saudade no acostamento, tomando a última
cerveja que tu trouxe. Tudo foi embora depois dos teus tragos. Quando ofereceu
um cigarro e eu não queria mais ficar ali assim. Sentindo gostar de um monte de
coisas que você gritava no peito, mas morria aos cantos num choro que me
apedrejava de tanto cuidado, meio desistindo de mim. Numa valsa calma e densa
até o portão. Ir embora cansa tanto. Depois, todas as coisas que voltaram
trouxeram um cartão postal fodido. Nisso não há beleza. São problemas de tempo,
espaço e consideração: quando encontro tuas ausências perto de tudo que existe.
Aí tocar é que me salva um pouco. Que saudade que eu tenho de você. Ainda ouso
falar de consideração com uma falsa moral típica da sociedade. Queria mesmo
ficar contigo como aqueles que não tiveram medo. Mas eu não sei como fazer isso
agora. Desculpa.
23 de jan. de 2017