2 de dez. de 2016

Parece também que tudo na vida é sobre ter coragem. A cidade, como areia movediça, alicia os impulsos mais premeditados. Estar aqui não me tem. Quem já sonhou ser de longe também foge de pensar. Tenho passado mais tempo no banheiro do que em qualquer outro cômodo da casa. E sei que tem algo errado: sou eu. Minha barriga é agora o abismo onde saltam todas as impermanências que me habitam. Essa barba ficando no meu rosto. É o meu tempo da espera. É o mesmo tempo que tenho para culpar meus antigos hábitos. Até porque sou mais fuga do que coragem. Eu sou fuga e isso me prende. Me sinto grande para a pequenez da minha coragem. Eu sou fuga e o meu amor que é uma coragem em fase de acabamento. Não está pronto. Demoro em você como quem também não se sente pronto. Como quem precisa aprender proteção. É como te abraçar mais forte, dizer que também preciso de mim e escolher um lugar não físico para a gente ir. De propósito, me encara com olhos de quem voltou - sem nunca ter estado. E eu gosto da coragem que chegou junto. É o que eu preciso. Conheci a tristeza de cabo a rabo. No escuro. Da mesma forma que agora não sei mais se fui para o céu. Encontro nisso uma liberdade que a vaidade insiste em me afastar. Aquilo que gosto em segredo. Como um canudo pressionado entre teus lábios. E a vontade de comer. Começo a encarar a cidade para quando você chegar. É outra. Um amplo dormitório disperso com uma pequena sala de estar onde a gente conversa sobre ir embora. Eu precisava gostar de você. Agora sim. E tem mais, estar pronto é uma idiotice porque não depende só de você. Engraçado que não é meu velho vício em distância, sofrido. É carnaval sem dia de cinzas. É folia na alma quando subo as ladeiras do teu corpo.