Entrei
no carro, liguei o som e comecei a dirigir por onde nunca tinha estado. Há
pessoas caminhando em estradas desconhecidas, desbravando mundos que fogem da
nossa capacidade de localização. É tudo uma questão de necessidade, de vontade.
Aumentava o volume toda vez que tinha a sensação de estar mais longe de mim,
como se a canção aproximasse a distância que há entre o que sou e o que a cada
dia é modificado dentro de mim, ainda que sem minha permissão, a vida segue a
ordem natural dos eventos. Talvez seja biológico. O sol se despedia enquanto a
lua chegava, sempre antes da noite, depois, a madrugada, e todas as vidas que a
ela se habituavam. Há noites que a ansiedade parece ser a maior parte de mim, é
quando as músicas soam insônia, e a agulha do toca disco para de funcionar,
talvez enferrujada, talvez mais uma vez, e todos os discos com as minhas
canções favoritas estão emprestados, como se alguém além de mim ainda ouvisse
lps. Em uma estrada deserta, sem relógio, sem calma, sem pressa, eu dirigi
durante toda a noite, e não havia sono, não havia sonho. Eu repito palavras
porque faz parte do ritmo, há vezes que a pontuação não é suficiente para que o
texto ganhe acordes. Há textos que soam músicas, ainda que não esteja sendo
cantado, pois preenche o mesmo espaço que as minhas canções favoritas. Nessas
noites, me debruço sobre os volumes antigos que guardei da biblioteca da minha
vó. Há histórias que nunca me foram contadas, mas que eu já tinha vivido. É
quando tenho saudade do que ainda não vivi. Há distâncias que soam saudade, é
tudo uma questão de linearidade, de respeitar a hora certa, mesmo sem saber a
errada. Cheguei a uma cidade onde nunca tinha ido, me lembrei da necessidade de
ter necessidade para ir a algum lugar. Era bela. A culpa começava a ganhar
proporções cada vez maiores por todas as pessoas que tinha abandonado, fiz o
retorno e tentei voltar. Fechei os olhos. A gente fecha os olhos e, tentando
esquecer, espera passar por tudo que nos dá medo, uma noite, talvez. Disseram
que nada é mais normal do que sentir medo e prazer ao mesmo tempo. Trem fantasma,
talvez a maior prova. Depois o susto, o medo, o grito, o choro. O freio. Como
todas as situações que não podemos mais voltar atrás. Todas as músicas que já
foram cantadas por aqueles que deixaram de existir, todas as verdades que foram
gritadas do segredo entre nós. Quando defender o que fingimos ser se torna cansativo,
há sempre uma música nos esperando para levar a qualquer distância. É tudo uma
questão de saber escapar. Desliguei o som. O silêncio anunciou que tudo estava
bem, e eu apenas tinha escapado da estrada. Há pessoas que caminham em estradas
desconhecidas, com medo de voltar para casa, ansiosas pelo que pode nunca
acontecer. Meu telefone tocou, e mesmo sem saber como, disse que estava
voltando. É tudo uma questão de saber quando é necessário voltar atrás, de
sentir saudade, de mesmo em terra desconhecida saber a hora certa de retornar. É tudo uma questão de saber a canção certa quando as noites soam ansiedade.
