16 de fev. de 2022

A cerveja estava com gosto de protetor solar porque eu deslizava meus dedos sujos na boca da long neck enquanto você falava sobre como eu poderia ir embora a qualquer momento. O calor estava insuportável, não consegui argumentar. E pode não parecer, mas ficar por perto ainda era muito importante pra mim. Então você avisou que meus lábios estavam brancos e encostou a ponta dos dedos tentando limpá-los. Tinha sol na sua cara – era tão bonito – e olhando pra seu braço assim estendido em direção ao meu rosto, construí a certeza de todo cuidado, mas ainda pensava na gente com insegurança. Era como se a vulnerabilidade fosse o ensaio de despedida mais efetivo. Eu estava perdido e você queria voltar pra casa chorando. Tentamos aproveitar o momento, falhamos. Tentamos não pensar nas outras pessoas, falamos. Abracei você apenas para que entendesse a diferença entre não saber o que prometer e não concordar com aquela história de mérito afetivo. Ninguém merece ninguém porque não é no mérito que depositamos nossas expectativas, mas é exatamente nele que as desperdiçamos. Pedi uma porção de batata frita. Estava com muita fome e queria que aquele momento não acabasse. Acabei indo. Acabei indo mais uma vez porque é na preparação que a gente aprende a ir embora. É na preparação que a gente se protege. Percebi naquela impossibilidade o quanto preciso ser meu próprio namorado. Hoje quase fui em seu lançamento, mas o bar da esquina estava tão cheio e a cerveja não tinha mais gosto de protetor solar.