O escritor colocou uma música triste para aparar as arestas da sua primeira novela. Os acordes dissonantes do piano desafinado também eram compositores daquela última revisão. Não inventavam verbos, mas sabiam – como se soubessem mais sobre roteiros de cinema do que sobre literatura – que a personagem central precisava de um idioma determinadamente seu. Chamava de novela, outro de romance, outro de outra coisa – uma terceira coisa entre as que não encontram parâmetros para as distâncias que tomam das suas próprias construções; a forma acima do que se escreve; o estilo também desafinado na medida do possível; um amigo que manda quebrar tudo em frases curtas e chamar de poema de ficção. O travesseiro de manhã molhado da janela esquecida aberta em uma cama não visitada há algumas horas. Antes de alterar as passagens, corria ao dicionário de analogias para encontrar a ideal, a possível de caber, algo entre a sobriedade de um prazo já muito postergado e a ausência de dinheiro em sua conta corrente – ainda um cartão de crédito vencido de meses, portanto bloqueado. Um e-mail lhe oferece um curso de engenharia da computação e ele está no quinto semestre de um livro nunca publicado.
