Você me deu neblinas
também. Tão cedo quanto de manhã. Trouxe no corpo o gosto do mar da sua cidade.
Foi bonito até a maresia. Depois eu construí uma ausência em suas encostas
vagarosamente. Coloquei pedra por pedra imersas em concretas dúvidas. Às vezes
chego a sentir as ondas respigando na parte de cima dela. Da ausência. Como
sinto mentir sobre as certezas que não tenho. Nenhum lugar da gente parecia ter
se acostumado quando levei minhas noites para descansar em suas manhãs. Nenhum
lugar na gente precisa ter se acostumado com a sua saudade de frente pra minha,
pois gosto de esquecer além disso. De sentir a lembrança sendo levada pela
correnteza. Ir. Da solidão desancorada que passeio à deriva das coisas. Lá. De experimentar
que não é mais seu o tempo que não consigo me dar. Foi. Alento remadas sem
rimas, é turbulento o mar que se perde nos quereres do nosso coral. O coração
vendaval traquejado em rodopios ásperos, balanços isolados, batimentos dispersos
e um anoitecer sóbrio e insatisfeito. É o querer que me afoga. Ofega em fôlegos
pálidos. Espero o próximo barco. Demora e é cansativo. Simulo movimentos à vela
por enquanto. Demora. O avesso é justamente o que eu não tenho coragem de
fazer. É cansativo. Talvez eu consiga ir lento e contemplativo de trem. Preciso
me arrastar na pós-atmosfera dessas entrâncias. Gastar devagar até não acabar
mais nunca. Acomodar os sussurros do meu peito em trilhos de tempos e cuidados.
8 de jan. de 2021