8 de jan. de 2021

Você me deu neblinas também. Tão cedo quanto de manhã. Trouxe no corpo o gosto do mar da sua cidade. Foi bonito até a maresia. Depois eu construí uma ausência em suas encostas vagarosamente. Coloquei pedra por pedra imersas em concretas dúvidas. Às vezes chego a sentir as ondas respigando na parte de cima dela. Da ausência. Como sinto mentir sobre as certezas que não tenho. Nenhum lugar da gente parecia ter se acostumado quando levei minhas noites para descansar em suas manhãs. Nenhum lugar na gente precisa ter se acostumado com a sua saudade de frente pra minha, pois gosto de esquecer além disso. De sentir a lembrança sendo levada pela correnteza. Ir. Da solidão desancorada que passeio à deriva das coisas. Lá. De experimentar que não é mais seu o tempo que não consigo me dar. Foi. Alento remadas sem rimas, é turbulento o mar que se perde nos quereres do nosso coral. O coração vendaval traquejado em rodopios ásperos, balanços isolados, batimentos dispersos e um anoitecer sóbrio e insatisfeito. É o querer que me afoga. Ofega em fôlegos pálidos. Espero o próximo barco. Demora e é cansativo. Simulo movimentos à vela por enquanto. Demora. O avesso é justamente o que eu não tenho coragem de fazer. É cansativo. Talvez eu consiga ir lento e contemplativo de trem. Preciso me arrastar na pós-atmosfera dessas entrâncias. Gastar devagar até não acabar mais nunca. Acomodar os sussurros do meu peito em trilhos de tempos e cuidados.