28 de mar. de 2022

Não consigo chegar até você porque a estrada é muito silenciosa. E estar perto não é acessível. Por mais que a gente arrisque juntar os trocados e, sei lá, tentar ver beleza nessa estrada, os acostamentos continuam a nos cansar. Também sei usar os meus silêncios. Guardo neles todas as tentativas. É assim que tenho partido. E sempre retorno ao mar de impossibilidades que insiste em me afogar. Esse desejo, meu bem, é um submarino? Consigo respirar debaixo d’água, entre cálculos e calendários. Sei ficar também, mas é inevitável sentir essa pena terrível ao constatar que o desejo se manifeste tão somente como probabilidade – uma probabilidade pequena, uma probalidadezinha. Te transformo em todos esses números para parecer mais fácil, para constatar que o jeito das coisas nesse estacionamento coberto de água, onde às vezes te assisto passear com os tubarões, permanece hermético.

20 de fev. de 2022

 – Posso mexer nos seus livros de poesia? Esse da Adelaide é o meu preferido, sabe. Essa edição da macondo ficou tão bonita. Gosto da vulnerabilidade desses poemas. Sim, concordo, ela é perspicaz em sentir ciúmes. Nunca tinha pensado dessa forma. E você, quando vai publicar o seu? E eu vou ter que esperar até lá para lê-lo? Claro que eu sei que não são sobre mim. Até parece que eu preciso das suas palavras pra me entender. Tampouco pra entender a gente. E você nem gosta de mim – o suficiente – deve ser bom assim. Esse aqui tem um poema com seu nome, sabia? Você nunca leu? Como assim não havia prestado atenção? É muito bonito, né? Combina contigo. Eu sempre lembro desse último verso porque é justamente o que eu sinto por você. Sim, sem açúcar. Ah, pode escolher, até hoje gostei de todas as suas indicações. Posso apagar a luz?

16 de fev. de 2022

A cerveja estava com gosto de protetor solar porque eu deslizava meus dedos sujos na boca da long neck enquanto você falava sobre como eu poderia ir embora a qualquer momento. O calor estava insuportável, não consegui argumentar. E pode não parecer, mas ficar por perto ainda era muito importante pra mim. Então você avisou que meus lábios estavam brancos e encostou a ponta dos dedos tentando limpá-los. Tinha sol na sua cara – era tão bonito – e olhando pra seu braço assim estendido em direção ao meu rosto, construí a certeza de todo cuidado, mas ainda pensava na gente com insegurança. Era como se a vulnerabilidade fosse o ensaio de despedida mais efetivo. Eu estava perdido e você queria voltar pra casa chorando. Tentamos aproveitar o momento, falhamos. Tentamos não pensar nas outras pessoas, falamos. Abracei você apenas para que entendesse a diferença entre não saber o que prometer e não concordar com aquela história de mérito afetivo. Ninguém merece ninguém porque não é no mérito que depositamos nossas expectativas, mas é exatamente nele que as desperdiçamos. Pedi uma porção de batata frita. Estava com muita fome e queria que aquele momento não acabasse. Acabei indo. Acabei indo mais uma vez porque é na preparação que a gente aprende a ir embora. É na preparação que a gente se protege. Percebi naquela impossibilidade o quanto preciso ser meu próprio namorado. Hoje quase fui em seu lançamento, mas o bar da esquina estava tão cheio e a cerveja não tinha mais gosto de protetor solar.

6 de fev. de 2022

Também espero alguma reação. É domingo e o sol está escondido por entre as minhas certezas. Eu sei, eu não deveria. Ou deveria de alguma outra forma. Nunca me sinto certo, mas às vezes consigo disfarçar um pouco. Na verdade, eu não sei. Não consigo saber. E me preocupa o fato de que me conheço tão pouco a ponto de acreditar que sei tudo sobre mim. Não, eu não posso dever. Não combina com essa zona de indiscernibilidade te colocar como minha última tentativa, porque você não é uma tentativa, mas acordar sem suas mensagens é uma tempestade. Assim como um dia já fomos um plano. Declino. De um lado existe uma canção tocando baixinho e ela explica que conhecer pessoas novas não combina com domingos chuvosos. Do outro, você espera alguma reação. Minha?

17 de out. de 2021

Você pede para avisar quando eu estiver por perto. Deveria. A cidade continua me esperando, você não. Você está caminhando pelo Rio Vermelho todos os sábados. Está muito bonito ainda. Continua. Bagunça a Rua da Paciência com a sua beleza. Porra, bagunça meus planos inteiros também. Perco muito tempo esperando nas filas dos banheiros públicos quando bebo cervejas baratas. Em nenhuma delas consigo parar de te procurar. Milito sem querer com alguém que prefere proteger a língua portuguesa do que tratar pelo pronome solicitado o não binário que estava em nossa frente. Você diria pra deixar pra lá, que todos estavam bêbados demais para compreender teorias queer. É difícil ser ariano quando me sinto errado, quando concordo contigo. Aquela mensagem no outro dia. Aquele ar de inocência. Diz que eu sou um caso sério, pergunta se pode me encontrar mais tarde. Você mandou seu endereço, cara. Ensaio perder a noção, calculo a corrida até seu apartamento. A vista é muito bonita e eu estava com saudade de ser lambido inteiro por sua cachorra. Mas eu cancelei o uber. Eu tô estranho, sem querer as coisas. Até aprendi a perder, que engraçado!

15 de set. de 2021

Queria que a Ana Martins Marques tivesse publicado um livro para cada domingo, para cada feriado. Os dias seguintes são sempre mais obedientes quando fico lembrando das palavras que ela esquece nas páginas, dos penhascos entre as frases, dos quilômetros que ficam pausados entre você e eu; há uma impossibilidade muito bonita ali. Tudo dentro da parte elétrica dos poemas funciona com sinceridade; parece dançar com as certezas, esfregar as certezas em minha cara, zelar pelas certezas. Os versos conhecem meu cheiro de abandono e eles pesam nesse cheiro – quase encostam, chegam perto.

26 de ago. de 2021

Você não gosta de sentir saudade; que contradição. Filas de supermercado, bares, ruas, tudo ensaia nossa despedida. Eu sei, a gente não pode morar na mesma cidade. A estreia dos meus melhores amigos do Instagram foi uma tragédia. Coloquei a foto de um poema meu no Kindle: ninguém respondeu; aquelas pessoas foram selecionadas por intenções; exatamente, nunca mais responderei absolutamente nada delas. Excluí todo mundo e o post, claro, você sabe que eu não aprendo a ser ignorado – principalmente aos domingos. Vivo preparando aulas agora, é o meu estado constante. Isso nunca acaba. Nem a ansiedade das horas que antecedem. Por outro lado, não dou mais uma aula sem que haja ao menos uma cerveja me esperando para depois: tem outro sabor (escute o poeta); a aula e a cerveja, exatamente nesta ordem. Ordem inclusive é o que anda faltando na minha poética. Tenho a ideia para um romance novo, comecei a planejar. É uma história na qual uso meus dedos para me vingar enquanto escrevo: a gente não pode morar na mesma cidade porque não posso mais passar as tardes entretido com fotos de arroz. Logo ela, que nunca me deu nada, agora enfeita suas próprias avenidas com sua beleza; quem te disse que eu vou morar sozinho lá?  

20 de ago. de 2021

Eu gostava de construir um vazio e ver você vivendo nele. Um novo apartamento me espera e romantizar meu processo de escrita ficou para dezembro, caso eu consiga, depois de tentar comprar um carro, arranjar dinheiro para o airbnb. Você sentia as tardes mergulhado naquele aguardo como se fosse a coisa mais importante dos dias. Queria aproveitar para dizer que não gostei da sua erudição, que estava mais interessado em sexo, quem sabe um reencontro ou algumas novas nudes. Eu tento imitar alguns autores também já lhe disse isso uma vez, mas não sei escrever poesias entenda. Isso não me impediu de ter escrito um livro inteiro com poemas que contam a nossa história com uma linearidade abominada pelos romancistas contemporâneos. Mulher, poeira e morte. Estou aprendendo a fazer listas não precisa ser tão gozado assim. É que eu vou voltar para lá e você brigou comigo para que eu fizesse isso; desobedeci até onde pude; eu te falei que não escolheria mais nada e que foda-se-essa-cidade-não-me-deixa.

17 de ago. de 2021

Por exemplo, esqueci alguma coisa em sua casa e acho que foram as palavras; não te mandei mensagens esse ano, perceba; as coisas andam complicadas no mundo inteiro; é que foge a palavra pra trair daí eu faço um texto sem esquinas; aqui eu não tenho com quem transar; você gostava de me sentir sozinho; eu tenho tido esforço para aguentar perder tanto assim; minha terapeuta ainda está de resguardo; hoje morreu mais uma senhora no rio de janeiro; você perguntou ao seu pai de onde ele conhece o dono daquele supermercado que faz promoção de galeto? você gosta tanto de passarinhos que levaria um dia inteiro guardando-os no céu; a rodoviária de madrugada quando eu ia te buscar; os bares já estavam fechados, mas sempre havia alguém na fonte; a cidade nunca ficava sozinha; assisti um filme tão bonito bem cult ontem; sim, no mubi.

 
(Encontros sem Tinder – distopia. Um barista agonizado me assiste passar café. Não terminar, deixar que terminem o quinto namoro. Encontrar no Instagram quem conheci na rua. Encontrar na rua quem conheci no Instagram. Ontem procurei suas meninas pela rua. Cuidar, palavra por palavra, daquilo que somos. Cidade não é ambiente pra vaqueiro não, pergunto. Sustentar em uma vida inteira os trinta segundos do storie. O engenheiro apareceu na obra e conversou com o pedreiro. Quantos caracteres são você, pergunto – na minha cabeça agora. Só quando estou distraído as encontro. Procuro distrações para encontrá-las. Anima não fazer alguma coisa hoje? – enredo pronto. Usar interrogação por medo de não ser compreendido. Piscina não aquecida na calçada do meu quarto – no inverno. Depois do domingo você sempre aparece a semana inteira. Estar disponível como o tempo de julho quando precisamos que não faça chuva. Não completar vinte oito anos sem ter lido as primeiras quatro linhas de lavoura arcaica. Contemplar os respiros das páginas e das aberturas desse mesmo livro. Escrever da mesma forma capítulos inteiros em um parágrafo, mas curtos. Pediu nudes da alma – eu, bobo, mandei do corpo.)